terça-feira, 25 de março de 2008

FICHA DE TRABALHO SOBRE AS FÁBULAS

Actividade – Descobrindo significados

1. Procure no dicionário alguns significados da palavra “moral”.
a) ___________________________________________
b) ___________________________________________
c) ___________________________________________
d) ___________________________________________
e) ___________________________________________


2. Complete o quadro abaixo, apontando aqueles valores que, na sua opinião, são, em geral, aceites pela sociedade, em oposição àqueles que são condenados:






Leitura compreensiva e interpretativa do texto


O Lobo e o cordeiro


Como naquele Verão fazia muito calor, um lobo dirigiu-se a um ribeirinho. Quando se preparava para mergulhar o focinho na água, ouviu um leve rumor de erva a mexer-se. Virou a cabeça nessa direcção e viu, mais adiante, um cordeirinho que bebia tranquilamente. “Vem mesmo a propósito!” – pensou o lobo de si para si. - “ Vim aqui para beber e encontro também o que comer...”Aclarou a voz, pôs um ar severo e exclamou:
-Eh! Tu aí!
-É comigo que está a falar, senhor? - respondeu o cordeiro. – Que deseja?
- O que é que desejo? Mas é evidente, meu malcriado! Não vês que ao beber me turvas a água? Nunca ninguém te ensinou a respeitar os mais velhos?
- Mas... senhor? Como pode dizer isso? Olhe como bebo com a ponta da língua... Além disso, com sua licença, eu estou mais abaixo e o senhor mais acima. A água passa primeiro por si e só depois por mim. Não é possível que esteja a incomodá-lo! – respondeu o cordeirinho com voz trémula.
- Histórias! Com a tua idade já me queres ensinar para que lado corre a água?
- Não, não é isso... só queria que reparasse...
- Qual reparar nem meio reparar! Olha que não me enganas! Pensas que te escapas, como no ano passado, quando andavas por aí a dizer mal da minha família? “Os lobos são assim... os lobos são assado...” Tiveste muita sorte por eu nunca te ter encontrado, senão já te tinha mostrado como são os lobos!
- Não sei quem lhe terá contado tal coisa, senhor, mas olhe que é falso, acredite. A prova é que no ano passado eu ainda não tinha nascido.
- Pois se não foste tu, foi o teu pai! - rosnou o lobo, saltando em cima do pobre inocente.
Moral
Para alguém decidido a fazer o mal a todo o custo, qualquer razão serve, ainda que seja uma mentira.


Esopo




Actividade – Trabalhando a estrutura do texto


a) Enumere, pelos menos, três adjectivos definidores do carácter do lobo e do cordeiro.


b) O encontro do lobo e do cordeiro acontece “nas águas limpas de um regato”. É possível determinar a localização exacta do cenário onde se passa a acção? Justifique sua resposta.


c) No verso “foi que falaste mal de mim no ano passado”, a expressão grifada permite situar a acção no tempo? Explique sua resposta.


d) O que nos permite afirmar que o lobo e o cordeiro eram velhos conhecidos?


e) Enumere os argumentos usados pelo lobo para justificar o castigo imposto ao cordeiro.


f) A fábula apresenta um ensinamento ao leitor. Que ensinamento é este e quem o transmite?


g) Porque é que o segundo verso – (nem sempre o Bem derrota o Mal) - está colocado entre parênteses? O que significa a expressão “nem sempre”?


h) Complete a frase, explicando-a com as suas palavras: A razão do mais forte é a que vence no final, pois ____________________________________________________________ .

FÁBULA: DEFINIÇÃO E EXEMPLO

A Fábula é uma narrativa breve, tendo animais como personagens principais e que tem por objectivo transmitir certas moralidades.



Exemplo de uma Fábula:

A Fábula A Cigarra e a Formiga
Rendo a cigarra em cantigas
Passado todo o Verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.
Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.
A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso ajunta:
«No Verão em que lidavas?»
À pedinte ela pergunta.
Responde a outra: «Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.»
«Oh bravo! (torna a formiga)
Cantavas? Pois dança agora.»
Rogou-lhe, que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza, e brio,
Algum grão, com que manter-se
‘Té voltar o aceso estio.
«Amiga, (diz a cigarra)
Prometo à fé de animal,
Pagar-vos até Agosto
Os juros, e o principal.»
A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso ajunta:
«No Verão em que lidavas?»
À pedinte ela pergunta.
Responde a outra: «Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.»
«Oh bravo! (torna a formiga)
Cantavas? Pois dança agora.»


A LENDA DE S. MARTINHO

Exemplo de uma Lenda:


A Lenda de S. Martinho

“Há muitos anos, vivia na cidade de Sabária, na Hungria, um valente cabo-de-guerra romano. Quando lhe nasceu um filho, pôs-lhe o nome de Martinho, pois Marte, para os Romanos, era o Deus da Guerra.
Para que Martinho se habituasse às lides guerreiras, o pai levava-o, ainda muito pequeno, para os acampamentos. Mais tarde, Martinho foi viver para Itália com o pai, que entretanto tinha sido transferido para Pavia.
Martinho aos 15 anos tornou-se soldado e pouco depois foi enviado para Amiens no norte da Gália.
Conta a lenda, que Martinho fazia rondas diárias na cidade para assegurar a ordem pública.
Num dia 11 de Novembro, chuvoso e frio, Martinho, como habitualmente, saiu e deparou-se com um pobre e velho mendigo, que lhe estendeu a mão a pedir esmola.
Como no momento não tinha nada para oferecer, tirou a capa que tinha sobre os ombros e com um rasgo de espada partiu-a ao meio, cobrindo com metade o corpo enregelado do pobre mendigo, seguindo depois o seu caminho.
Não ia ainda muito longe, quando de repente a chuva parou e do céu irromperam quentes raios de sol, permitindo que o soldado, agora menos agasalhado, não tivesse frio.”

AS LENDAS

O QUE SÃO LENDAS?




As lendas são consideradas um caso à parte da literatura popular. Relatam factos tidos como acontecidos. Nas vilas, povoados e cidades têm lugar diversos acontecimentos. A estes acontecimentos verdadeiros juntam-se pouco a pouco pormenores, esquecem-se outros, dando origem a um produto simultaneamente real e fantástico.
Em tom de conclusão, podemos afirmar que as lendas assentam num fundamento histórico provável ou possível que é alterado pela intervenção do maravilhoso popular, cristão ou pagão.

FICHA DE LEITURA DO CONTO «A PALAVRA MÁGICA» DE VERGÍLIO FERREIRA

Leitura Orientada do conto «A Palavra Mágica» de Vergílio Ferreira



1. Lê o conto atentamente e responde às perguntas seguintes.


1.1. Fala da história contada neste conto.


1.2. Resume o episódio deste conto em que a palavra "inócuo" é utilizada pela primeira vez.


1.2.1. Que explicações sugeres para:


· A alteração fonética da palavra, de "inócuo" para "inoque"?
· A atribuição à palavra de um significado insultuoso como "lombeiro", "vadio"?


1.3. Ao longo da narrativa sucedem-se os episódios em que a palavra "inócuo" vai acumulando novos significados.


1.3.1. Delimita cada um desses episódios.


1.3.2. Explica a circunstância que dá origem a cada novo significado.


1.4. Como se justifica que a personagem com mais instrução, como por exemplo o juiz, não tenha detectado de imediato o verdadeiro significado da palavra-problema?


1.5. Como interpretas a discordância entre o juiz e o advogado acerca da gravidade da palavra "inócuo"?


1.6. Esclarecido e divulgado o verdadeiro sentido de "inócuo", seria de esperar que a palavra caísse no esquecimento ou deixasse de incomodar as pessoas. Foi o que aconteceu? Justifica a tua resposta com base no desenlace da narrativa.

1.7. " A vida, de facto, emendara o dicionário". Parece-te que o conto documenta esta afirmação? Justifica.

1.8. A este conto deu o autor o título de "Palavra Mágica".
· Procura explicar porquê.
· Sugere outro título adequado e sugestivo.

2.
2.1. O Silvestre é a personagem de que temos mais elementos de caracterização. Com base nesses elementos, parece-te que ele é de facto um "inócuo"? Justifica.


2.2. Várias personagens são referidas ao longo da narrativa. Selecciona duas que te tenham despertado a atenção e justifica a tua escolha.


2.3. Caracteriza Silvestre.

3.
3.1. Assinala todas as informações que o texto nos dá sobre o espaço onde se desenrola a acção.


3.2. Com base no registo que fizeste, indica:
· O espaço físico em que decorre a acção.
· O espaço social sugerido.


4. Lê atentamente, os seguintes textos:


Há palavras alegres e há palavras tristes. E essa tristeza ou essa alegria uma vez está nela, outras no modo de as dizer. Assim, certa palavra pode ter muitas e até contraditórias significações consoante o modo como é pronunciada.

Sebastião da Gama, Diário


As palavras
São como um cristal,
As palavras,
Algumas, um punhal,
Um incêndio.
Outras
Orvalho apenas.
(...)
Quem as escuta? Quem
As recolhe assim
Cruéis, desfeitas,
Nas suas conchas puras.

Eugénio de Andrade, Poemas



O mais perfeito dos sons humanos é a palavra. A poesia é a forma mais perfeita da palavra.


Han Yu (768-824)


5. Neste conto, não há referentes temporais, tenta explicar o motivo.


5.1. Classifica o narrador quanto à presença e à posição. Documenta a tua resposta com elementos do texto.

6. Tendo em conta que a palavra “inócuo” não pertence ao nível de língua utilizado pelos habitantes da aldeia, compreende-se, agora, facilmente, o aparecimento dos vários significados que lhe foram atribuídos pelas diferentes personagens.

6.1.Indica os vários significados da palavra “inócuo” mencionados no texto.

6.2. Repara que estes significados atribuídos à palavra e os outros que aparecem ao longo do conto, apesar de diferentes, possuem algo que os une. Indica o que é comum entre eles.

7. Explica, por palavras tuas, a última frase do excerto.


8. "O meu pagnon chamou-me inoque, mãe".
8.1. Identifica a função sintáctica dos diversos componentes da frase transcrita.

8.2. Reescreve o diálogo mãe/ filho utilizando o discurso indirecto.


Actividade individual



O poder da palavra


As palavras têm moda. Quando acaba a moda para umas começa a moda para outras. As que se vão embora voltam depois. Voltam sempre, e mudadas de cada vez. De cada vez mais viajadas.


Almada Negreiros

Sim,
conheço a força das palavras.
menos que nada.
menos que pétalas pisadas
num salão de baile.
e no entanto
se eu chamasse
quem dentre os homens me ouviria
sem palavras?


Carlos de Oliveira

"Sangrentas são as palavras e deixam vestígios através do tempo."


Herberto Helder

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.


Alexandre O'Neill


É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos
muitas espadas.


Eugénio de Andrade


1.
a) Relaciona os textos anteriores com o significado atribuído à palavra “inócuo” pelos habitantes da aldeia, que afinal continuou a perdurar.

b) Explica como é que as modas também influenciam as palavras.


2. Refere, tu também, uma palavra que não esteja no dicionário, mas que utilizes com frequência.


3. Selecciona a citação que achares mais sugestiva e comenta-a.

«A PALAVRA MÁGICA» DE VERGÍLIO FERREIRA



Nunca o Silvestre tinha tido uma pega com ninguém. Se às vezes guerreava, com palavras azedas para cá e para lá, era apenas com os fundos da própria consciência. Viúvo, sem filhos, dono de umas leiras herdadas, o que mais parecia inquietá-lo era a maneira de alijar bem depressa o dinheiro das rendas. Semeava tão facilmente as economias, que ninguém via naquilo um sintoma de pena ou de justiça — mesmo da velha —, mas apenas um desejo urgente de comodidade. Dar aliviava. Pregavam-lhe que o Paulino ia logo de casa dele derretê-lo em vinho, que o Carmelo não comprava nada, livros ou cadernos ao filho, que andava na instrução primária. As moedas rolavam-lhe para dentro da algibeira e com o mesmo impulso fatal rolavam para fora, deixando-lhe, no sítio, a paz.
Ora um domingo, o Silvestre ensarilhou-se, sem querer, numa disputa colérica com o Ramos da loja. Fora o caso que ao falar-lhe, no correr da conversa, em trabalhadores e salários, Silvestre deixou cair que, no seu entender, dada a carestia da vida, o trabalho de um homem de enxada não era de forma alguma bem pago. Mas disse-o sem um desejo de discórdia, facilmente, abertamente, com a mesma fatalidade clara de quem inspira e expira. Todavia, o Ramos, ferido de espora, atacou de cabeça baixa:
— Que autoridade tem você para falar? Quem lhe encomendou o sermão?
— Homem! — clama o Silvestre, de mão pacífica no ar. — Calma aí, se faz favor. Falei por falar.
— E a dar-lhe. Burro sou eu em ligar-lhe importância. Sabe lá você o que é a vida, sabe lá nada. Não tem filhos em casa, não tem quebreiras de cabeça. Assim, também eu.
— Faço o que posso — desabafou o outro.
— E eu a ligar-lhe. Realmente você é um pobre diabo, Silvestre. Quem é parvo é quem o ouve. Você é um bom, afinal. Anda no mundo por ver andar os outros. Quem é você, Silvestre amigo? Um inócuo, no fim de contas. Um inócuo é o que você é.
Silvestre já se dispusera a ouvir tudo com resignação. Mas, à palavra “inócuo”, estranha ao seu ouvido montanhês, tremeu. E à cautela, não o codilhassem por parvo, disse:
— «inoque» será você.
Também o Ramos não via o fundo ao significado de inócuo. Topara por acaso a palavra, num diálogo aceso de folhetim, e gostara logo dela, por aquele sabor redondo a moca grossa de ferros, cravada de puas. Dois homens que assistiam ao barulho partiram logo dali, com o vocábulo ainda quente da refrega, a comunicá-lo à freguesia:
— Chamou-lhe tudo, o patife. Só porque o pobre entendia que a jorna de um homem é fraca. Que era um paz-de-alma. E um «inoque».
— Que é isso de «inoque»?
— Coisa boa não é. Queria ele dizer na sua que o Silvestre não trabalhava, que era um lombeiro, um vadio.
Como nesse dia, que era domingo, Paulino entrara em casa com a bebedeira do seu descanso, a mulher praguejou, como estava previsto, e cobriu o homem de insultos como não estava inteiramente previsto:
— Seu bêbado ordinário. Seu «inoque» reles.
Quando a palavra caiu da boca da mulher, vinha já tinta de carrascão. E desde aí, «inoque» significou, como é de ver, vadio e bêbado.
Ora tempos depois apareceu na aldeia um sujeito de gabardina, a vender drogas para todas as moléstias dos pobres. Pedra de queimar carbúnculos, unguentos de encoirar, solda para costelas quebradas. Vendeu todo o sortido. Mas logo às primeiras experiências, as drogas falharam. Houve pois necessidade de marcar a ferro aquela roubalheira de gabardina e unhas polidas. E como o vocabulário dos pobres era curto, alguém se lembrou da palavra milagrosa do Ramos. Pelo que, «inoque» significou trampolineiro ou ladrão dos finos. Mas como havia ainda os ladrões dos “grossos”, não foi difícil meter dentro da palavra mais um veneno.
Como, porém, as desgraças e a cólera do povo pediam cada dia termos novos para se exprimirem, “inócuo” foi inchando de mais significações. Quando a Rainha deu um tiro de caçadeira, num dia de arraial, ao homem da amante, chamaram-lhe, evidentemente, «inoque», por ser um devasso e um assassino de caçadeira. Daí que fosse fácil meter também no «inoque» o assassino de faca e a cróia de porta aberta.
“Inócuo” dera a volta à aldeia, secara todo o fel das discórdias, escoara todo o ódio da população. A moca grossa de ferro, seteada de puas, era agora uma arma terrível, quase desleal, que só se usava quando se tinha despejado já toda a cartucheira de insultos. Até que o Perdigão dos Cabritos entrou pela ponte norte da aldeia, com o cavalo carregado de reses, num dia de feira, e se azedou com o taberneiro, quando trocava um borrego por vinho. De olhos chamejantes, perdido, já no quente da refrega, o taberneiro atirou-lhe o verbo da maldição. Houve quem achasse desmedida a vingança do homem. Perdigão arriou:
— «Inoque» será você.
Também ele não sabia que veneno tinham despejado na palavra, mas, pelo sim pelo não, aliviou. E pela tarde, enfardelou o termo infame com as peles da matança, e abalou com ele pela ponte sul. Longos meses a palavra maldita andou por lá a descarregar o ódio das gentes. Até que um dia voltou a entrar na aldeia, não já pela ponte sul que dava para a Vila, mas pela ponte norte que levava a terras sem nome. Vinha em farrapos, na boca de um caldeireiro, mais estropiada, coberta da baba de todos os rancores e de todos os crimes. Quando deitava um pingo num caneco de folha, o caldeireiro pegou-se de razões com o freguês. O dono do caneco correu uma mão amiga pelas costas do vagabundo:
— Lá ver isso, velhinho. O combinado foram cinco tostões.
— Não me faça festas que eu não sou mulher, seu «inoque» reles.
E “inócuo” significou um nome feio para um homem. Então o ajudante, ou o que era, do caldeireiro, tentou deitar água na fogueira.
— Cale-se também você, seu «inoque» ordinário. A mim não me mata você à fome como fez a seu pai.
Porque “inócuo” também queria dizer parricida. Então o Ramos, que passava perto, tomou a palavra excomungada nas mãos e pediu ao velho que a abrisse, para ver tudo o que já lá tinha dentro. Um cheiro pútrido a fezes, a pus, a vinagre, alastrou pelo espanto de todos em redor. Com os dedos da memória, o caldeireiro foi tirando do ventre do vocábulo restos de velhos significados, maldições, ódios, desesperos. “Inócuo” era “bêbado”, ‘ladrão”, “incendiário’, ‘pederasta’, e, uma que outra vez, um desabafo ligeiro como “poça” ou “bolas”. Para o calão da gente fina, que topara a palavra na cozinha, nos trabalhos do campo, soube-se um dia que significava ainda 'escroque', «souteneur», e mais.
A aldeia em peso tremeu. Era possível a qualquer apanhar com o palavrão na cara e ficar coberto de peste. Eis porém que uma vez o filho do Gomes, que andava no colégio da Vila, insultado de «inoque» por um colega, numa partida de bilhar, lembrou-se à noite de ver no dicionário a fundura vernácula da ofensa. Procurou «inoque». Não vinha. Procurou «noque». Também não vinha. Furioso, buscou à toa, «quinoque», «moque», «soque». Nada. Quando a mãe o procurou, para ver se estudava, encontrou-o às marradas no dicionário. Choroso, o rapaz declarou:
— O meu «pagnon» chamou-me «inoque», mãe. Queria saber o que era. Mas não vem no dicionário.
— Não vejas! — clamou a mulher, de braços no ar. — Deixa lá! Não te importes.
— Mas que quer dizer?
— Coisas ruins, meu filho. Herege, homem sem religião e mais coisas más. Não vejas!
Começaram então a aparecer as primeiras queixas no tribunal da Vila, contra a injúria de «noque», «inoque» e, finalmente, de “inócuo”, consoante a instrução de cada um. Como a palavra estropiada era um termo bárbaro nos seus ouvidos cultos, o juiz pedia a versão da injúria em linguagem correcta, sendo essa versão que instruía os autos.
— Chamou-me «noque».
— Absolutamente. Mas que queria ele dizer na sua?
— Pois queria dizer que eu era ladrão.
E escrevia-se “ladrão”. Pelo mesmo motivo, gravava-se a ofensa, de outras vezes, nos termos de “assassino”, “devasso”, ou “bêbedo”.
Ora um dia foi o próprio Bernardino da Fábrica que moveu um processo ao guarda-livros pela injúria de «inócuo». Metida a questão nos trilhos legais, o Bernardino procurou o juiz, para ver se podia ajustar, previamente, uma bordoada firme no agressor. Mas aí, o juiz atirou uma palmada à coxa curta, clamou:
— Homem! Agora entendo eu. «Noque» era ‘inócuo’!
E admitindo que o vocábulo contivesse um veneno insuspeito, pegou num dicionário recente, o último modelo de ortografia e significados. Então pasmou de assombro, perante o escuro mistério que carregara de pólvora o termo mais benigno da língua: “inocuo’ significa apenas «que não faz dano, inofensivo”. E pôs o dicionário aberto diante da ofensa de Bernardino. O industrial carregou a luneta, e longo tempo, colérico, exigiu do livro insultos que lá não estavam.
— Nada feito — repetia o juiz. — O homem chamou-lhe, correctamente, “pessoa incapaz de fazer mal a alguém”.
— Mas há a intenção — opôs o advogado, mais tarde, quando se voltou ao assunto. — Há o sentido que toda a gente liga à palavra.
— Nada feito — insistia o juiz. — “Inócuo” é ‘inofensivo’ até nova ordem.
Então o advogado desabafou. Também ele sabia, como toda a gente culta, que “inócuo” era um pobre diabo dum termo que não fazia mal a ninguém. Sabia-o, com um saber analítico, desde as aulas de Latim do seu Padre Mestre. Mas não ignorava também que o ódio humano nem sempre conseguia razões para se justificar. E nesse caso, qualquer palavra, mesmo inofensiva, era um pendão desfraldado no pau alto da vingança. Bernardino fora ofendido. Mas podia querer amanhã ofender e as razões serem curtas para o seu rancor. Uma palavra informe, soprada de todos os furores, seria então a melhor arma. Despir o mastro da bandeira seria desnudar-se na dureza bárbara do pau. ‘Inócuo’ era uma maravilha para a última defesa da racionalidade humana, pelos ocos esconderijos onde podiam ocultar-se todos os rancores e maldições. “Inócuo” era um benefício social. Não havia que emendar-se a vida pelo dicionário. Havia que forçar-se o dicionário a meter a vida na pele.
— Cultive-se o “inócuo”. Salvemo-lo, para nos salvarmos.
Desgraçadamente, porém, os receios do advogado eram vãos. A vida, de facto, emendara o dicionário. Como bola de neve, “inócuo” rolara do ódio alto dos homens e longo tempo levaria a derreter o calor da compreensão e da justiça. Foi assim que o filho do Gomes, depois de ter encontrado a correspondência vernácula da injúria do «pagnon», tentou reabilitar a palavra excomungada. Esbaforido, foi com o dicionário aberto no sítio maldito, da mãe para o pai, do pai para os amigos. Mas ninguém o entendeu. «Noque» ou “inócuo” era um anátema verde de pus.
— Que importa o que dizem? — clamou o heroísmo do rapaz. — Podem chamar-me «inoque» ou “inócuo”, que não ligo. Agora sei o que quer dizer.
Dias depois, porém, um colega precisou de o insultar, e arremessou-lhe outra vez com o termo nefando. Toda a gente conhecia já a opinião do dicionário. Mas o furor era sempre mais forte do que o simples livro impresso.
Pelo que, nessa noite, o filho do Gomes não dormiu, preocupado apenas com descobrir uma maneira profícua de sovar bem o colega, para desforra integral.


in Contos, Vergílio Ferreira

NOTAS BIOGRÁFICAS DE ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY

Ficha Informativa sobre o autor - ANTOINE DE SAINT- EXUPÉRY

"Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos."


Antoine de Saint-Exupéry nasceu em Lyon, França em 29/06/1900 e morreu em 1944 (local ignorado). Foi aviador de profissão e escritor por devoção. Foi piloto do correio aéreo que na década de 30 voava das possessões francesas na África para Argentina e Chile, fazendo escala em Natal, o ponto sul-americano mais próximo do continente africano. Um dos pioneiros da aviação comercial francesa, organizou as linhas da Patagónia e empreendeu voos de Paris à Saigon e de New York à Terra do Fogo. Actuou de maneira intensa durante a 2ª Guerra Mundial unindo-se à aviação Aliada em 1942. De espírito audaz, sentia-se melhor do que nunca quando estava no ar e, de preferência realizando os voos mais arriscados.
As experiências que viveu nas suas missões heróicas, soube transportar para seus livros de maneira profunda. Seu livro mais conhecido «O Pequeno Príncipe» é um convite à reflexão para que as pessoas se humanizem, se cativem e se percebam.
Antoine foi oficialmente contra o governo nazista. Quando «O Pequeno Príncipe» foi publicado em 1943, a França estava ocupada pelo exército alemão.