terça-feira, 25 de março de 2008

«O Principezinho» de Antoine de Saint-Éxupery - Excerto 2

Texto 2


No dia seguinte o principezinho voltou.
- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro da tarde, às três, já eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... São precisos rituais.
- O que é um ritual? - perguntou o principezinho.
- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu também - disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um ritual. Dançam à quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Assim, posso ir passear até à vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua - disse o principezinho. Eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Pois quis - disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! - disse o principezinho.
- Vou - disse a raposa.
- Então, não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. – Por causa da cor do trigo...
Depois ela acrescentou:
- Anda, vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.
O principezinho lá foi ver as rosas outra vez:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem vós cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela é agora única no mundo.
E as rosas ficaram bastante incomodadas.
- Sois belas, mas vazias - disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Claro que a minha rosa, para um transeunte qualquer, é perfeitamente igual a vós. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus debaixo de uma redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (excepto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. Porque, ela é a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus - disse ele...
- Adeus - disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que fez a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade - disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para jamais se esquecer.


Adaptado de «O Principezinho» de Antoine Saint Exupéry



COMPREENSÃO


1. “Era melhor teres vindo à mesma hora”.
1.1. Porque tem a raposa esta opinião?


2. A determinado momento, a raposa está quase a chorar. Porquê?


3. O Principezinho pensa que fez mal em prender a raposa a si, mas a raposa tem uma opinião diferente: “Ai, isso é que ganhei! Por causa do trigo...”
3.1. O que ganhou afinal a raposa?


4. De acordo com a raposa, o que torna uma coisa importante para nós?


5. Explique por palavras suas o segredo da raposa.


6. Atribua um título ao texto e justifique a escolha.


7. Tenha presente os textos 1 e 2.
7.1. Considera que foi proveitosa para o principezinho a vinda à terra? Justifique.


ESTRUTURA DA LÍNGUA


1. Distinguir o tipo e formas de frases (cf. w
ww.priberam.pt/dlpo/gramatica/gramatica51.aspx)


“O principezinho voltou no dia seguinte.”
“- O que é um ritual?”
“- Ai! – exclamou a raposa. – Ai que me vou pôr a chorar...”

sexta-feira, 21 de março de 2008

Em honra da(s) MULHER(ES)


A Mulher


Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

Florbela Espanca

Dia da Poesia... e Também da Árvore


Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

Ricardo Reis



Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa


Agora as palavras


Obedecem-me agora muito menos,
as palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se da rédea,
não me perdoama mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo-de-artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão, e elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.
Com elas fazia o lume,
sustentava os meus dias, mas agora
estão ariscas, escapam-se por entre
as mãos, arreganham os dentes
se tento retê-las. Ou será que
já só procuro as mais encabritadas?

Eugénio de Andrade



Cada árvore é um ser para ser em nós


Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdidae encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folha
se de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses

António Ramos Rosa



“Árvores do Alentejo”

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca

quarta-feira, 12 de março de 2008

«O Principezinho» de Antoine de Saint-Éxupery

Excerto 1



E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia - disse a raposa.
- Bom dia - respondeu com delicadeza* o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui - disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Vem brincar comigo - propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa - disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"*?
- Tu não és daqui - disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens - disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm espingardas e caçam. É bem incómodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não - disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida - disse a raposa. Significa "criar laços...".
- Criar laços?
- Exactamente - disse a raposa. Tu não és para mim senão um rapaz inteiramente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender - disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível - disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! Não foi na Terra - disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito - suspirou a raposa. A perfeição não existe.
Mas a raposa voltou à sua ideia.
- A minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens caçam-me a mim. Todas as galinhas são iguais e todos os homens se parecem também. É por isso que eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativares, será como se o Sol iluminasse a minha vida. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos fazem-me esconder debaixo da terra.
Os teus hão-de atrair-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me dizem nada. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. Como o trigo é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu hei-de amar o barulho do vento atrás do trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! - disse ela.
- Tenho muito gosto - respondeu o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou - disse a raposa. Os homens já não têm tempo de tomar conhecimento de nada. Compram tudo pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente - respondeu a raposa. Primeiro, sentas-te um pouco afastado de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia que passe, te sentarás mais perto...

Adaptado de «O Principezinho» de Antoine Saint Exupéry


I
COMPREENSÃO


1. Onde se passa esta história?

2. Identifique as personagens do excerto.

3. Caracterize-as física e psicologicamente.

4. O que há em comum entre estas personagens?

5. Qual é a palavra que serve de base ao diálogo entre a raposa e o principezinho?

6. De acordo com a raposa, o que é preciso para fazer um amigo?
7. Que crítica faz a raposa à nossa sociedade, no que diz respeito ao acto de fazer amigos?

8. Atribua um título ao excerto, justificando a sua escolha.

9. “A linguagem é fonte de mal-entendidos”.

a) Explica o sentido desta afirmação.

b) Estás de acordo com esta afirmação? Justifica a resposta.

ESTRUTURA DA LÍNGUA

1. Encontre sinónimos para as seguintes palavras: delicadeza, cativar e intrigada.

2. “- Bom dia – disse a raposa.
- Bom dia – respondeu com delicadeza* o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.”

2.1. Identifique o emissor, o receptor, o canal, o código e a mensagem da frase.

II

“Amigo” é um sorriso
de boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
“Amigo” é a solidão derrotada!

Alexandre O’Neill, No Reino da Dinamarca

Com base neste excerto do poema “Amigo”, compõe um texto curto, mas bem estruturado, salientando a importância da verdadeira amizade.

FICHA DE TRABALHO SOBRE O CONTO POPULAR «O SAPATEIRO POBRE»

1. Lê atentamente o texto que se segue:

O Sapateiro Pobre


Havia um sapateiro, que trabalhava à porta de casa, e todo o santíssimo dia cantava; tinha muitos filhos, que andavam rotinhos pela rua, pela muita pobreza, e à noite enquanto a mulher fazia a ceia, o homem puxava da viola e tocava os seus batuques muito contente.
Defronte dele morava um ricaço, que reparou naquele viver, e teve pelo sapateiro tal compaixão, que lhe mandou dar um saco de dinheiro, porque o queria fazer feliz.
O sapateiro lá ficou admirado; pegou no dinheiro e à noite fechou-se com a mulher para o contarem. Naquela noite o sapateiro já não tocou viola; as crianças andavam a brincar pela casa e faziam barulho, fizeram-no errar a conta e ele teve de lhes bater, e ouviu-se uma choradeira, como nunca tinham feito quando tinham mais fome. Dizia a mulher:
– E agora, o que havemos nós de fazer a tanto dinheiro?
– Enterra-se.
– Perdemo-lhe o tino; é melhor metê-lo na arca.
– Mas podem roubá-lo, o melhor é pô-lo a render.
– Ora isso é ser onzeneiro.
– Então levantam-se as casas, e fazem-se de sobrado, e depois arranjo a oficina toda pintadinha.
– Isso não tem nada com a obra; o melhor era comprarmos uns campinhos; eu sou filha de lavrador e puxa-me o corpo para o campo.
– Nessa não caio eu.
– Pois o que me faz conta é ter terra; tudo o mais é vento.
As coisas foram-se azedando, palavra puxa palavra, o homem zanga-se, atiça duas solhas na mulher, berreiro de uma banda, berreiro de outra, naquela noite não pregaram olho. O vizinho ricaço reparava em tudo, e não sabia explicar aquela mudança. Por fim o sapateiro disse à mulher:
– Sabes que mais, o dinheiro tirou-nos a nossa antiga alegria! O melhor era ir levá-lo outra vez ao vizinho dali defronte, e que nos deixe cá com aquela pobreza que nos fazia amigos um do outro.
A mulher abraçou aquilo com ambas as mãos e o sapateiro com vontade de recobrar a sua alegria e a da mulher e dos filhos, foi entregar o dinheiro e voltou para a sua tripeça a cantar e trabalhar como o costume.

Contos Tradicionais Portugueses, Publicações Europa-América


I. Responde as seguintes questões de forma CLARA e COMPLETA.

Para ajudar-te a compreender o texto, são dados alguns sinónimos para algumas palavras “difíceis”.


1. Sublinha o sinónimo correspondente à palavra que se encontra em itálico. Só existe uma opção correcta, para cada frase.

a. … “isso é ser onzeneiro” (linha 16)

a) comerciante b) avarento c) esperto c) pobre

b. …”o homem zanga-se, atiça” … (l. 23)

a) prega (bater) b) acende c) sacode d) esfrega


c. … “atiça duas solhas na mulher” … (l. 24)

a) peixes marinhos b) gargalhadas c) moedas d) bofetadas

d. … “voltou para a sua tripeça”… (l. 31)

a) ofício de sapateiro b) fazenda c) festa d) terra


2. Identifica as personagens deste texto.

3. Caracteriza-as.

4. Refere o que o vizinho decidiu fazer.
5. Explica o que aconteceu na casa do sapateiro depois de ter recebido a oferta.
6. Aponta a forma como o sapateiro e a mulher resolveram o conflito.

7. Salienta a moral, o ensinamento que este conto pretende transmitir.

8. Este texto é um conto popular. Situa a acção no tempo e no espaço, mencionando as características ou a estrutura deste tipo de textos.

9. Este conto contém várias expressões populares.

9.1. Explica o sentido das seguintes:

a) … ”Perdemo-lhe o tino”… (l. 14)

b) … “puxa-me o corpo para o campo” … (l. 20)

c) … “tudo o mais é vento” … (l. 22)

d) ”palavra puxa palavra” … (l. 23)

II. Lê, atentamente, o primeiro e o último parágrafo deste conto tradicional. A tua tarefa consiste em redigir a parte do conto em falta.


HISTÓRIA DO COMPADRE RICO E DO COMPADRE POBRE

Moravam numa aldeia dois compadres. Um era pobre e o outro rico, mas muito miserável. Naquela terra era uso todos quantos matavam porco dar um lombo ao abade. O compadre rico, que queria matar porco sem ter de dar o lombo, lamentou-se ao pobre, dizendo mal de tal uso.
Este deu-lhe de conselho...

(...)

Desta maneira o compadre pobre teve porco e vinho sem lhe custar nada.

Exemplo de Conto Tradicional/ Popular «O caldo de Pedra»

O Caldo de Pedra


Um frade andava ao peditório; chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar nada. O frade estava a cair com fome, e disse:
- Vou ver se faço um caldinho de pedra.
E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:
- Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.
Responderam-lhes:
- Sempre queremos ver isso.
Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:
- Se me emprestassem aí um pucarinho.
Deram-lhe uma panela de barro. E ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.
- Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas.
Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:
- Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava de primor.
Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o que via. Diz o frade, provando o caldo:
- Está um bocadinho insosso; bem precisa de uma pedrinha de sal. Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse:
- Agora com uns olhinhos de couve ficava que os anjos o comeriam.
A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as, e ripou-as com os dedos deitando as folhas na panela.
Quando os olhos já estavam aferventados disse o frade:
- Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça…
Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço; ele botou-o à panela, e enquanto se cozia, tirou do alforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeu e lambeu o beiço; depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo; a gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:
- Ó senhor frade, então a pedra?
Respondeu o frade:
- A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez.
E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.


Teófilo Braga, “Contos Tradicionais do Povo Português”, vol. I

DEFINIÇÃO DE CONTO

O Conto

“Quem conta um conto, acrescenta um ponto.”


1. É um género narrativo que se caracteriza por apresentar um número reduzido de personagens, uma concentração de acontecimentos e indicações espácio-temporais indeterminadas.

2. Os dicionaristas portugueses insistem em atribuir à palavra “conto” um sentido muito vizinho de “fábula”, isto é, uma narração que encerra uma lição moral.

3. Os autores e o público preferem defini-lo como um relato de aventuras, que realmente aconteceram (e também acarretam um sentido moralizante).

No princípio do século XIX desaparece a preocupação moralizante. Mas subsiste a narrativa que se prende à realidade, quer esta seja histórica, quer seja do domínio da experiência de cada autor.

O conto foi iniciado por Gonçalo Fernandes Trancoso, em “Contos e Histórias de Proveito e Exemplo” (1575). Embora tenha gozado durante muitos séculos de grande popularidade, foi com Eça de Queirós e Fialho de Almeida, que o conto adquire uma autonomia literária e o liberta da sua condição secundária.

Nos nossos dias, destaca-se, por exemplo, Miguel Torga com os seus “Contos da Montanha” e os seus “Bichos” ou Sophia de Mello Breyner Andresen com “A menina do Mar”, “O Cavaleiro da Dinamarca”, entre outros.