terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

DUALIDADE


Temos todos duas vidas: a verdadeira, que é a que sonhamos na infância; e a falsa, que é a que vivemos em convivência com os outros.


Fernando Pessoa

CONQUISTAS...


"As grandes conquistas estão na nossa própria solidão".


Agustina Bessa-Luís

ESCREVE

Escreve!

Senta-te diante da folha de papel e escreve. Escrever o quê? Não perguntes. Os crentes têm as suas horas de orar, mesmo não estando inclinados para isso. Concentram-se, fazem um esforço de contensão beata e lá conseguem. Esperam a graça e às vezes ela vem. Escrever é orar sem um deus para a oração. Porque o poder da divindade não passa apenas pela crença e é aí apenas uma modalidade de a fazer existir. Ela existe para os que não crêem, como expressão do sagrado sem divindade que a preencha. Como é que outros escrevem em agnosticismo da sensibilidade? Decerto eles o fazem sendo crentes como os crentes pelo acto extremo de o manifestarem. Eles captarão assim o poder da transfiguração e do incognoscível na execução fria do acto em que isso deveria ser. Escreve e não perguntes. Escreve para te doeres disso, de não saberes. E já houve resposta bastante.


Vergílio Ferreira, in "Pensar"

ESCREVO


Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal e do lume,
e eras tu somentea dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir
às fontes.
E voltar a nascer.

Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede.

A LEITURA E... A SINTAXE


"Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,esse gosto esquisito.Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.Ele fez um limpamento em meus receios.O Padre falou ainda: - Manoel, isso não é doença,pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...E se riu.- Você não é de bugre? - ele continuou.Que sim, eu respondi.Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas .- Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.Há que apenas saber errar bem o seu idioma. Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de gramática."


Manoel de Barros

ESCREVER...

Escrever…

- Não é uma capacidade inata (um dom), mas algo que pode ser aprendido ou aperfeiçoado;

- “Escrever bem” não é sinónimo de escrever de forma decorativa ou de forma rebuscada;


- “Por dominarmos a língua no modo oral não significa que aprendemos natural e espontaneamente as regras e os mecanismos da escrita”.


Quatro regras de boa formação textual


1. Regra da Repetição: o texto deve comportar no seu desenvolvimento elementos que se combinem entre si.

2. Regra da Progressão: o desenvolvimento do texto deve ser acompanhado de um acréscimo de novos elementos.

3. Regra da Não–Contradição: quando introduzimos novos elementos, temos que verificar se não estamos a contradizer os conteúdos anteriores.

4. Regra da Relação: para que o leitor perceba o texto que escrevemos, os elementos, que compõem a sequência do texto, têm que se articular entre si.

CONSTRUÇÃO DE UM TEXTO


A escrita contém mais riscos do que a comunicação oral. Enquanto nesta a existência de uma interacção entre emissor/ receptor permite corrigir ou explicar a mensagem, na comunicação escrita o texto está fixado tornando-se passível de sentidos ambíguos e de mal-entendidos. Torna-se, pois, importante saber dominar o código concedendo-lhe apenas as interpretações e significações desejadas. Além disso, a mensagem tem de ser mais elaborada, na obediência às regras gramaticais.

Mas escrever um texto pressupõe ideias que de forma clara e articulada se transformam pela escrita num discurso. A produção do texto escrito exige operações que vão desde a organização das ideias e estruturação do discurso à sua apresentação. Só o treino regular, a reflexão sobre a estrutura da língua e a leitura permitirão que a competência aconteça.

1. Organização das ideias

A reflexão sobre um assunto provoca o surgimento de ideias que devem ser imediatamente anotadas para a sua possível utilização. Por outro lado, há observações, factos ou outros elementos que poderão servir de informação para o trabalho a realizar. Com todos estes dados deve-se fazer uma selecção e organização de acordo com o tema e a sequencialização das ideias. Escolhem-se os dados com interesse, organizam-se de acordo com a importância, as afinidades, as oposições e constitui-se um esquema gráfico onde se estabeleçam as relações entre as várias ideias.

Em qualquer desenvolvimento de um tema é importante a sua unidade. Esta só se consegue se houver uma organização das ideias tendo cuidado com uma certa hierarquia de importância e de valores, com a sua pertinência e a sua adequação.

2. Estruturação do discurso

Sabemos que o texto depende muitas vezes da formação e da personalidade do escritor, ou seja, daquilo a que chamamos o estilo. Quando, porém, nos encontramos numa fase de aprendizagem e a nossa experiência da escrita está pouco desenvolvida, precisamos de encontrar um caminho para a estruturação de um discurso a partir das ideias que recolhemos e na obediência à correcção formal, a nível:

- Morfológico (aplicação correcta das categorias morfológicas, concordância em género, número e grau, flexão verbal,…);

- Ortográfico (palavras correctamente escritas, acentuação, uso adequado das maiúsculas, divisão silábica na translineação,…);

- Lexical (vocabulário adequado à mensagem a transmitir,…);

- Sintáctico (pontuação, estruturação correcta da frase,…).

Constituir um parágrafo com apenas uma ideia-chave é uma atitude possível, sobretudo quando se principia. Com o tempo verificaremos que num parágrafo podem articular-se várias ideias ou que uma só ideia acontece, por vezes, em vários parágrafos devidamente estruturados e articulados, mas nunca perdendo de vista a necessidade de ser concreto e/ou de recorrer à fundamentação e exemplificação.

Para que, finalmente, um texto seja correcto sob o ponto de vista da estruturação do discurso é necessário que possua articulação das ideias, sequencialização e um certo movimento.

Na elaboração convém ter em conta:

* Introdução: inicia-se o assunto, pode-se anunciar os diferentes momentos a desenvolver e tenta-se despertar o interesse;

* Desenvolvimento: definem-se, explicam-se e exemplificam-se as várias ideias e cria-se um elo de ligação entre elas que permita transformar o discurso num todo compreensível e correctamente conduzido;

* Conclusão: tenta-se fazer uma apreciação global e uma breve síntese das ideias expostas.

3. Apresentação

Qualquer texto escrito vale pelas ideias contidas, pela correcção do discurso e pela sua apresentação. A ilegibilidade, a desordenação ou outras irregularidades tornam o trabalho de difícil leitura e dificultam a sua compreensão e apreciação.

A divisão do texto em parágrafos e a obediência a uma estruturação com introdução desenvolvimento e conclusão concorrem para um melhor entendimento e avaliação. Se a isto juntarmos a clareza na grafia (com o recurso à caligrafia legível ou à dactilografia) e a distribuição proporcional na folha, o discurso estará bem apresentado. No caso de trabalhos longos aconselha-se o recurso a índices, notas e indicações bibliográficas que irão contribuir para a sua valorização.