quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

(PRE)CONCEITOS


A família estava toda na praia. As crianças faziam castelos de areia junto da água, quando ao longe apareceu uma velhinha de cabelos brancos e despenteados, roupa suja e esfarrapada, que ia sussurrando umas palavras por entre dentes, enquanto do chão ia recolhendo coisas que metia num saco.
Ao vê-la, os pais chamaram as crianças e recomendaram-lhes que não se aproximassem da velhinha. Quando ela passou ali perto, enquanto uma e outra vez se inclinava a apanhar qualquer coisa, sorriu delicadamente para a família. Mas ninguém lhe retribuiu a saudação.
Algumas semanas mais tarde, souberam que essa velhinha há muitos anos que passava assim a vida a limpar a praia de vidros partidos, para que as crianças não ferissem os pés.

PARA PENSAR: UMA DE CADA VEZ...


Era uma vez um homem que caminhava, ao pôr-do-sol, numa praia deserta. À medida que avançava, começou a avistar outro homem à distância. Ao aproximar-se, notou que ele se inclinava, apanhava algo e atirava para a água. Repetidamente, continuava. Inclinava-se, apanhava algo e atirava para a água. Aproximando-se ainda mais, o homem, notou que o outro estava a apanhar estrelas-do-mar que tinham sido arrastadas para a praia pela força das marés e, uma de cada vez, lançava-as de volta à água. O homem ficou intrigado. Aproximou-se e disse:

— Boa tarde, amigo. Estava a tentar adivinhar o que é que está a fazer.

— Estou a devolver estas estrelas-do-mar ao oceano. Sabe, a maré está baixa e todas as estrelas-do-mar foram arrastadas para a praia. Se eu não as lançar de volta ao mar, a sua casa, elas morrerão por falta de oxigénio - respondeu o Homem.

— Já entendo! - respondeu o outro. Mas deve haver milhares de estrelas-do-mar nesta praia! Provavelmente não será capaz de as apanhar a todas. É que são muitas, simplesmente. E além do mais, isso está a acontecer em centenas de praias acima e abaixo desta! Não está a ver que não vai fazer qualquer diferença?

O outro sorriu, curvou-se, apanhou uma outra estrela-do-mar e, ao arremessá-la de volta ao mar, replicou:

- Olhe, fez diferença para esta que acabei agora de atirar.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

NÃO POSSO ADIAR O AMOR


Não posso adiar o amor para outro século
não posso ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa

QUASE UM POEMA DE AMOR



Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.


Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.


Miguel Torga

DE AMOR...


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.


E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.


Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.


Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia

QUADRAS ALUSIVAS AO AMOR



Como é tão belo sonhar,
Se estamos apaixonados
E em romance celebrar…
O dia dos namorados!...



Dia de amor manifesto,
Que inspira mil emoções,
Em que qualquer simples gesto,
Faz palpitar corações!...



E o coração se arrebata,
De desejos consumados,
Que se afirmam nesta data,
Consagrada aos namorados!...

PROVÉRBIOS SOBRE O AMOR...


A mulher casada marido lhe basta.
Amor que nasce de súbito mais tempo leva a curar.
As feridas da ternura quem as faz é que as cura.
Casa-te e verás: perdes o sono e mal dormirás.
Casamento e mortalha no céu se talha.
Mais vale um dia de amor que dez anos de latim.
Marido e mulher deveriam tratar-se como visitas.
Ninguém larga sem dor o que possui com amor.
O amor é como a lua: quando não cresce mingua.
O ciúme infindo às vezes acorda quem está dormindo.
Por três dias de ralhar ninguém deixe de casar.
Quem anda cego de amores não verá senão paredes.
Quem casa a correr toda a vida tem para se arrepender.
Se queres bem casar teu igual vai procurar.